Brasil tem 1º caso de sucesso em terapia celular contra doença de Crohn

Um procedimento similar ao transplante de medula óssea para tratamento de linfoma conseguiu pela primeira vez no Brasil salvar uma paciente com doença de Crohn, transtorno autoimune que causa inflamação intestinal.

O procedimento foi realizado por médicos da Beneficência Portuguesa de São José do Rio Preto (SP) após a paciente conseguir uma liminar autorizando o tratamento.

O método, tecnicamente um transplante de células-tronco sanguíneas, ainda não foi aprovado por autoridades regulatórias brasileiras. Apesar disso, já está sendo usado para casos mais graves da doença em hospitais nos Estados Unidos e Europa.

Os médicos de Rio Preto afirmam que procuraram fazer o transplante de células-tronco nesse caso porque a paciente não reagiu bem a nenhum dos tratamentos disponíveis para a doença de Crohn, que é considerada um problema crônico, sem cura.

“Ela já tinha sido submetida a uma retirada de parte do intestino fino e do grosso, já havia sido tratada com dois medicamentos diferentes e, quando chegou aqui, tentamos uma terceira alternativa de medicação”, conta Roberto Kaiser Jr., proctologista da Beneficência Portuguesa que a acompanhou. O que o levou a buscar uma alternativa foi uma reação alérgica à última droga, que fez a paciente sofrer parada respiratória.

“Chegou um ponto em que a gente não tinha mais o que oferecer para ela”, diz o médico. Kaiser então procurou um hematologista do hospital, Milton Ruiz, que o apresentou a um médico do Memorial Hospital de Chicago, uma das instituições com mais experiência para o tratamento de células-tronco contra a doença de Crohn.

O americano Richard Burt foi então a Rio Preto, onde ajudou Ruiz e Kaiser a estabelecerem um protocolo para lidar com o caso.

Antes de ser submetida ao transplante em outubro do ano passado, Giselle Idalgo, 29, situava-se entre os casos mais graves de Crohn.

“Tive que parar de trabalhar, parar a faculdade, parar tudo”, conta. “Precisava de ajuda em casa até para pentear o cabelo e tomar banho, porque não tinha mais força”.

Na fase mais crítica da doença, que avançava desde 2010, a paciente de 1,78 m chegou a pesar 35 kg. Após breve período de alívio antes de a medicação de último recurso provocar uma reação alérgica, ela voltou a sofrer dores abdominais, diarreia, sangramentos e náusea.

Depois de submetida ao transplante – um processo que ao todo resultou em 40 dias de internação -, Giselle começou a melhorar progressivamente e, hoje, sem precisar tomar medicações, está fazendo cursinho e recuperou parte do peso.

Ruiz compara o procedimento ao botão “reiniciar” de um computador. Um processo que estava funcionando mal no organismo pode ser corrigido, desde que retomado desde o início. A Beneficência Portuguesa diz agora que já está habilitada a repetir o procedimento, quando houver autorização judicial.

Flávio Steinwurz, do hospital Albert Einstein de São Paulo, diz que são recentes as evidências clínicas de que o transplante pode beneficiar alguns pacientes de Crohn. O Einstein planeja agora um ensaio clínico para a técnica.

Por Rafael Garcia
Folha de São Paulo

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