Um transplante inusitado

Transplante de fezes. É isso mesmo. O procedimento é feito em diferentes partes do mundo, ainda em caráter de estudo, e tem servido como tratamento para patologias inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn, retocolite, doenças autoimunes, depressão, autismo, obesidade, diabetes e hipertensão.

Considerado avançado em termos de estudo, o transplante de microbiota fecal também é feito em Rio Preto. Há cerca de um ano e meio o gastroenterologista Mikaell Gouvea Faria realiza o procedimento para avaliar os efeitos da melhora da microbiota no intestino de pacientes que têm doença de Crohn e infecção pela bactéria clostridium. A técnica consiste em coletar fezes de um doador sadio, processá-las e transferir para um paciente que está com problemas de saúde. Desta forma, se introduz uma mistura de bactérias saudáveis que podem tomar o lugar das bactérias ruins, causadoras de doenças.

Em Rio Preto foram feitos cinco transplantes até o momento. “Para a doença de Crohn e infecção pela clostridium desenvolvemos aqui em Rio Preto um protocolo de pesquisa para realizar esse procedimento nos pacientes que necessitam, sendo a última fronteira do tratamento.” A infecção pela clostridium, bactéria que faz parte da flora intestinal dos seres humanos, atinge 10% das pessoas no mundo.

Quando os antibióticos não fazem efeito, a bactéria toma conta do intestino. “A incidência da doença de Crohn e a retocolite está aumentando, principalmente em países desenvolvidos e em desenvolvimento, e isso gera uma busca grande por novos tratamentos. Muitas vezes essas patologias se apresentam de forma tão grave que a vida do paciente é comprometida e pode levar até a morte”, explica Faria.

Segundo estudos feitos na clínica Mayo, em Minnesota (Estados Unidos), a taxa de sucesso dos tratamentos com antibióticos em casos de infecção permanente pela clostridium são de apenas 40% a 50%. Já no transplante, 90% obtiveram sucesso. Existem consórcios em diferentes partes do mundo investigando quais são as bactérias que compõem a flora microbiana intestinal, suas proporções, e, mais recentemente, os estudos avançam para saber as fun- ções que essas bactérias exercem no intestino.

A medicina já constatou que a maioria das pessoas doentes tem a flora intestinal alterada ou mesmo desequilibrada. Assim, surgiram os transplantes de microbiota intestinal, que é uma tentativa de reestabelecer o equilíbrio e melhorar a relação das bactérias com o organismo. Faria estudou o assunto e fez cursos em Barcelona, além de participar de congressos nos Estados Unidos. “Eu queria saber mais e ver os resultados que estão sendo obtidos nos maiores centros de estudos do mundo nesse transplante para trazer a técnica para Rio Preto”, afirma.

Todo o processo é feito dentro da clínica Kaiser, desde a coleta de amostras, a retirada da microbiota e, através de colonoscopia, a transferência das bactérias para o paciente. É como se o material biológico sadio fosse borrifado em todo o intestino grosso e parte do fino para criar colônias sadias que vão tomar o lugar das bacté- rias ruins. Dos cinco transplantados em Rio Preto apenas um não respondeu como se esperava ao tratamento. “É que ele tem outros fatores envolvidos, não apenas a infecção pela clostridium”, diz o especialista.

Ainda segundo Faria, a retomada dos estudos de transplante de microbiota foi feita nos últimos cinco há dez anos, com o avanço da biologia molecular. “O transplante de microbiota é um procedimento que tem relatos muito antigos, ficou esquecido até os últimos anos e agora está em crescente devido ao avanço das tecnologias que possibilitaram estudos para a identificação da flora microbiana intestinal”, diz. “Com isso, diferentes áreas da medicina estão fazendo o transplante de microbiota para tratar hipertensos, pessoas com problemas intestinais, obesos, pessoas com depressão”, completa o especialista.

Mara Sousa 10/2/2017 ‘Melhorei minha qualidade de vida’ Técnica médica chegou ao Brasil em 2013 CIDADES Transferência de fezes entre pacientes é utilizada no tratamento de doenças inflamatórias do intestino; material biológico é borrifado no órgão para criar colônias sadias de bactérias, que substituem as ruins.

Diversas áreas da medicina fazem o transplante para tratar obesos, pessoas com depressão Mikaell Faria, médico O médico Mikaell Gouvea Faria e a paciente Gisele Martins Henrique Inácio Aícro Júnior/Editoria de Arte Desde 2003, quando desenvolveu a doença de Crohn, a vida da professora Gisele Martins Henrique Inácio, 30 anos, passou a ser de tentativas e mais tentativas de tratamentos medicamentosos. Com o tempo, a doença piorou e ela teve de abandonar até as atividades do dia a dia.

A doença de Crohn é uma doença inflamatória séria do trato intestinal. Habitualmente causa diarreia, cólica abdominal, febre e, às vezes, sangramento retal. Também podem ocorrer perda de apetite e de peso. Os sintomas podem variar de leve a grave. Gisele estava com o quadro da doença agravado. Além das dores e diarreia, tinha febre diariamente, sangramento e fissuras. “Eu sentia uma fraqueza extrema e não conseguia fazer nada. Meus exames estavam sempre alterados em função dos remédios que eu tomava, passei a ter problemas no fígado. Eu não tinha uma vida normal”, diz.

O primeiro procedimento pelo qual a professora passou foi o transplante de células-tronco, em 2015. Ele é feito no Brasil em pacientes com Crohn apenas pelos médicos de Rio Preto Roberto Luiz Kaiser Júnior, proctologista, e Milton Artur Ruiz, hematologista. “Depois disso foi sugerido o transplante de microbiota e fiz em janeiro de 2016”, conta. Gisele diz que depois dos dois transplantes os resultados positivos vieram. “Eu digo para todos que retomei minha vida no ano passado. Voltei ao convívio social, pratico atividades físicas e outras coisas que pessoas sadias podem fazer.

A minha qualidade de vida é completamente outra”, afirma. A paciente é de São Paulo e veio na sexta-feira, dia 10, para consulta de rotina com o gastroenterologista Mikaell Faria. “Existe um acompanhamento. Meus exames de saúde estão ótimos, mas de períodos em períodos é preciso avaliar meu organismo. A doença de Crohn não tem cura e os cuidados são para sempre. Faço acompanhamento nutricional e também terapêutico”, conclui.

O estudante Maycon de Lima Malaquias, 23, também se submeteu ao transplante de cé- lulas-tronco e depois ao de microbiota para tratar a doença de Crohn. “Depois do transplante de medula tive muitos altos e baixos e a minha doença está diretamente relacionada com o emocional. Em janeiro de 2016 passei pelo segundo transplante e aí, sim, as coisas mudaram. É um procedimento rápido, sem dor e que te devolve a qualidade de vida. Hoje estou bem”. Ele diz que vai ao banheiro uma a duas vezes por dia e não sente mais cólicas. “Estou com acompanhamento psicológico, nutricional e busquei apoio espiritual. Tudo isso é importante quando se tem a doença de Crohn.”

Por Nany Fadil
Diário da Região